Aprender guitarra não precisa significar passar horas repetindo exercícios sem saber exatamente onde aquilo será aplicado.

Escalas, acordes, arpejos, ligados, palhetada alternada e outros exercícios são importantes, mas existe uma maneira de transformar tudo isso em música: montar um repertório pensado para o seu desenvolvimento.

Escolher músicas para estudar não é simplesmente selecionar aquelas que você mais gosta. Um bom repertório pode funcionar como uma espécie de trilha de aprendizado, colocando diferentes técnicas, ritmos, acordes e conceitos musicais em situações reais.

Neste artigo, você vai entender como montar um repertório que ajude você a evoluir na guitarra de maneira mais consciente e musical.

Por que estudar através de um repertório?

Quando você aprende uma música, não está trabalhando apenas uma habilidade.

Uma única música pode envolver ritmo, acordes, dinâmica, técnica de mão direita, sincronização das mãos, percepção musical, estrutura e até conhecimento de teoria.

Isso faz com que o repertório seja uma ferramenta extremamente completa.

Imagine, por exemplo, que você esteja estudando uma música baseada em power chords. Além de aprender os acordes, você pode trabalhar:

  • mudança rápida entre posições;
  • precisão da mão esquerda;
  • palhetada;
  • abafamento das cordas;
  • ritmo;
  • dinâmica;
  • andamento;
  • percepção da estrutura da música.

O exercício deixa de ser algo isolado e passa a ter uma finalidade musical.

O primeiro passo é escolher músicas que você realmente gosta

Parece uma recomendação óbvia, mas ela faz muita diferença.

Se você não gosta da música que está estudando, a prática pode rapidamente se transformar em obrigação.

Por outro lado, quando existe uma conexão com a música, fica mais fácil prestar atenção aos detalhes e repetir determinado trecho várias vezes.

Isso não significa escolher apenas músicas fáceis.

Uma boa estratégia é misturar músicas que você consegue tocar com outras que representam um desafio.

Por exemplo:

  • uma música para ganhar confiança;
  • uma música para trabalhar ritmo;
  • uma música para desenvolver técnica;
  • uma música mais difícil para estabelecer um novo objetivo.

Dessa maneira, o repertório deixa de ser apenas uma coleção de músicas e passa a ter uma função dentro do estudo.

Não escolha todas as músicas pelo mesmo motivo

Um erro comum é montar um repertório apenas com músicas que trabalham a mesma habilidade.

Se você escolhe dez músicas porque todas têm riffs semelhantes, provavelmente estará praticando bastante uma determinada característica, mas deixando outras de lado.

Procure criar variedade.

Seu repertório pode incluir músicas para trabalhar:

Riffs

Ótimos para desenvolver precisão, ritmo, articulação e sincronização.

Acordes

Ajudam a desenvolver mudanças de acordes, pestanas, voicings e acompanhamento.

Bases rítmicas

São importantes para desenvolver senso de tempo, dinâmica e consistência.

Solos

Podem trabalhar bends, vibratos, ligados, palhetada, frases e construção melódica.

Arpejos

Ajudam na visualização dos acordes e na compreensão da relação entre harmonia e melodia.

Músicas completas

São fundamentais para desenvolver resistência, memória, estrutura musical e capacidade de tocar do início ao fim.

Crie níveis diferentes dentro do repertório

Seu repertório não precisa ser formado apenas por músicas que estão exatamente no seu nível atual.

Uma divisão simples pode funcionar muito bem:

Nível 1 — músicas domináveis

São músicas que você consegue aprender relativamente rápido.

O objetivo aqui é ganhar fluência, trabalhar musicalidade e manter a motivação.

Nível 2 — músicas de desenvolvimento

São músicas que exigem alguma técnica que ainda está sendo desenvolvida.

Você provavelmente vai precisar estudar determinados trechos separadamente antes de conseguir tocar a música inteira.

Esse é o nível em que grande parte da evolução acontece.

Nível 3 — músicas-desafio

São aquelas que ainda estão acima da sua capacidade atual.

Talvez você não consiga tocar tudo imediatamente. E tudo bem.

O objetivo é identificar quais habilidades estão faltando para chegar lá.

Uma música difícil pode revelar exatamente o que você precisa estudar.

Use o repertório para descobrir o que estudar

Essa talvez seja uma das maiores vantagens desse método.

Em vez de pensar:

"Preciso estudar palhetada alternada."

Você pode perceber:

"Essa música tem um trecho em que minha palhetada não acompanha o andamento."

A partir daí, o estudo fica muito mais específico.

Você identifica o problema, trabalha a técnica e depois volta para a música.

O mesmo pode acontecer com:

  • bends desafinados;
  • dificuldade com pestanas;
  • mudanças lentas de acordes;
  • problemas de sincronização;
  • falta de resistência;
  • dificuldade para manter o tempo;
  • excesso de tensão;
  • dificuldade para memorizar frases.

A música passa a ser uma ferramenta de diagnóstico.

Não tente aprender a música inteira de uma vez

Outra armadilha é começar pelo início da música e tentar tocar até o final repetidamente.

Isso pode funcionar, mas nem sempre é a maneira mais eficiente.

Divida a música em partes.

Por exemplo:

  1. introdução;
  2. primeiro riff;
  3. verso;
  4. refrão;
  5. ponte;
  6. solo;
  7. final.

Escolha um trecho, entenda o que está acontecendo e trabalhe lentamente.

Depois, conecte esse trecho ao anterior e ao seguinte.

O objetivo não é apenas conseguir tocar cada parte isoladamente. É conseguir conectar as partes sem perder o tempo e a fluidez.

Aprenda músicas inteiras

Existe uma diferença importante entre aprender um riff e aprender uma música.

Você pode saber tocar o riff principal perfeitamente e ainda não conseguir tocar a música.

Aprender uma música inteira desenvolve habilidades diferentes.

Você precisa entender quando cada parte entra, quantas vezes ela se repete, como a dinâmica muda e como a música chega ao final.

Isso melhora sua percepção da estrutura musical e também sua capacidade de acompanhar outros músicos.

Tenha músicas de diferentes estilos

Mesmo que você tenha um estilo preferido, estudar músicas diferentes pode ampliar sua visão como guitarrista.

Um guitarrista de rock pode aprender algo com o blues.

Um guitarrista de metal pode estudar funk para melhorar o senso rítmico.

Um guitarrista interessado em solos pode estudar músicas com bases mais simples para trabalhar fraseado e dinâmica.

Você não precisa mudar de estilo.

A ideia é utilizar diferentes linguagens musicais para desenvolver habilidades que podem voltar para o seu estilo principal.

Monte um repertório progressivo

Uma boa estratégia é revisar seu repertório de tempos em tempos.

Pergunte:

  • Essa música ainda representa um desafio?
  • O que eu aprendi estudando essa música?
  • Existe alguma técnica que ainda preciso desenvolver?
  • Consigo tocar a música inteira?
  • Consigo tocar acompanhando a gravação?
  • Consigo tocar sem depender da tablatura?
  • Consigo manter o tempo sem parar?

Se você já domina uma música completamente, talvez seja hora de substituí-la por outra que apresente um novo desafio.

Mas não abandone necessariamente as músicas antigas.

Voltar a elas depois de alguns meses pode ser uma excelente forma de perceber sua evolução.

Um exemplo de repertório para estudo

Imagine um guitarrista que está em nível iniciante/intermediário.

Um repertório inicial poderia ser organizado desta maneira:

Música 1 — Riff

Objetivo: precisão e sincronização.

Música 2 — Acordes

Objetivo: mudanças de acordes e acompanhamento.

Música 3 — Ritmo

Objetivo: trabalhar levadas e dinâmica.

Música 4 — Power chords

Objetivo: precisão, abafamento e controle da mão direita.

Música 5 — Solo simples

Objetivo: bends, vibrato e fraseado.

Música 6 — Música-desafio

Objetivo: identificar novas técnicas para estudar.

Não existe uma combinação obrigatória. O importante é que cada música tenha uma função.

O repertório também pode ensinar teoria

Teoria musical fica muito mais interessante quando você consegue enxergar sua aplicação.

Ao estudar uma música, tente observar:

  • qual é a tonalidade;
  • quais acordes aparecem;
  • como funciona a progressão;
  • quais escalas podem estar relacionadas aos solos;
  • como o riff se relaciona com a harmonia;
  • onde acontecem mudanças de dinâmica;
  • qual é a estrutura da música.

Você não precisa transformar cada sessão de estudo em uma aula teórica.

Basta começar a fazer perguntas.

Com o tempo, você deixa de apenas reproduzir o que está na música e começa a entender por que aquilo funciona.

O repertório não substitui os exercícios

Estudar através de músicas não significa abandonar exercícios técnicos.

Exercícios continuam sendo importantes.

A diferença está na relação entre eles.

Se você identifica que está tendo dificuldade com determinado movimento, pode utilizar um exercício específico para desenvolver aquela habilidade.

Depois, volte para o repertório e aplique o que estudou.

Essa conexão entre exercício e música torna o estudo muito mais significativo.

Uma rotina simples para estudar

Uma sessão de estudo pode ser dividida, por exemplo, assim:

10 minutos — aquecimento

Movimentos simples para preparar as mãos e a atenção.

15 minutos — técnica

Trabalhe uma habilidade específica que precisa ser desenvolvida.

25 minutos — repertório

Estude uma música ou trecho com atenção aos detalhes.

10 minutos — tocar

Toque músicas que você já domina, tentando executar sem interrupções.

A divisão não precisa ser exatamente essa.

O importante é que o repertório tenha espaço real dentro da rotina.

Erros comuns ao montar um repertório

Escolher apenas músicas muito fáceis

Isso pode gerar sensação de evolução, mas eventualmente o desenvolvimento fica limitado.

Escolher apenas músicas muito difíceis

O excesso de dificuldade também pode gerar frustração.

Estudar apenas os riffs principais

Riffs são ótimos, mas aprender a música inteira desenvolve outras habilidades.

Ter músicas demais ao mesmo tempo

Você não precisa estudar vinte músicas simultaneamente.

Poucas músicas bem trabalhadas podem ensinar muito mais.

Nunca revisar músicas antigas

Voltar ao repertório é uma ótima maneira de perceber evolução e identificar pontos que ainda precisam de atenção.

O melhor repertório é aquele que faz você tocar mais

Não existe uma lista universal de músicas que todo guitarrista precisa estudar.

O repertório ideal depende do seu nível, dos estilos que você gosta, dos seus objetivos e das habilidades que precisa desenvolver.

O mais importante é não enxergar as músicas apenas como algo para decorar.

Use o repertório como uma ferramenta de estudo.

Escolha músicas que desafiem você, mas que também sejam interessantes o suficiente para manter sua vontade de tocar. Identifique as técnicas presentes nelas, transforme suas dificuldades em objetivos de estudo e volte para a música para aplicar o que aprendeu.

No fim das contas, aprender guitarra de verdade significa transformar técnica em música.

E poucas coisas fazem isso melhor do que um bom repertório.